A renovação das preocupações com a Grécia contribuiu para uma postura mais cautelosa, em um movimento conhecido na semana passada: a aversão global ao risco. Após terem comprado ativos considerados de risco antecipando um pacote de ajuda financeira, começaram a ficar nervosos quando este demora a sair. O resultado foi a persistência da volatilidade e das incertezas, que não devem ser dirimidas no curto e médio prazos.
Em nossa avaliação, o cenário mais provável para 2010 e 2011 é o de uma recuperação moderada da atividade, com a retirada gradual e lenta dos estímulos monetários e fiscais nas economias centrais e um esforço contínuo e forte, com alguns sobressaltos, dos governos para equilibrar as contas públicas. Acreditamos que em alguns momentos os indicadores macroeconômicos e as sinalizações dos governos estarão combinados de uma forma mais positiva e em outros, mais preocupantes.
Atribuimos a probabilidade de cerca de 70% para a concretização desse cenário básico, no qual, o euro oscilará no intervalo de US$.1,30 a US$.1,40 e o real entre US$.1,70 a US$.1,90, mais ou menos valorizados, conforme essa combinação penda para um dos lados.
Movimentos atuais dos mercados de moedas e taxas de juros
Na semana passada, principalmente nos últimos dias da semana, os investidores globais passaram a evitar as moedas mais sensíveis ao risco e se voltaram para o dólar, em um movimento alimentado pela intensificação da crise fiscal da Grécia e, na sexta-feira, aumento da taxa de juro na Índia.
Oos investidores receberam com receio o aumento da taxa de juros na Índia, em 0,25 ponto porcentual. O Banco Central indiano argumentou que a medida visa a ancorar as expectativas inflacionárias, mas o aperto no juro levantou temores de que possa desaquecer a demanda no país, que é grande consumidor de commodities.
As moedas ligadas às commodities, particularmente os dólares da Austrália e da Nova Zelândia, caíram em linha com o declínio dos preços do ouro e da prata. O dólar canadense também recuou, dado que sua tendência para a paridade contra o dólar perdeu força com a saída os investidores dos ativos mais sensíveis ao crescimento.
O movimento de fuga para a segurança do dólar foi reforçado pela crescente ansiedade do investidor com relação ao encontro de cúpula da União Europeia nesta semana. Ainda não está claro se os países europeus fornecerão ajuda financeira à Grécia, que vai ter que refinanciar mais de € 20 bilhões em bônus nos próximos dois meses.
O euro recuou até a mínima intraday US$ 1,3503, seu mais baixo nível desde o dia 2 de março, na sexta-feira. No final da tarde em Nova York, o euro estava a US$ 1,3535.
A pressão externa recolocou o dólar na casa de R$ 1,80, com a moeda americana acumulando alta de 2,21% na semana, com a moeda brasileira também sofrendo a influência da manutenção da Selic em 8,75% ao ano. No fechamento de sexta-feira, o dólar à vista estava cotado a R$.1,801.
No segmento de juros doméstico, a decisão do BC de manter a taxa básica estável resultou em queda dos rendimentos dos contratos mais curtos e elevação dos longos. O mais provável é que os indicadores sigam mostrando economia superaquecida e inflação pressionada, o que resultará em aumentos adicionais dos prêmios de risco e conseqüentemente trajetória de alta para as taxas. O Janeiro/04, por exemplo, que encerrou ano ao redor 12,7%, chegou a se aproximar de 12% às vésperas da reunião do Copom, mas encerrou a semana 10,2%.
Bolsa
Para alguns analistas deste segmento, a tendência dominante agora é de baixa, com o mercado tendendo a buscar o suporte dos 66 mil pontos para o Ibovespa nesta semana. Para outros, o Ibovespa deve manter o intervalo de oscilação da semana passada, que ficou entre os 68.500 e os 70.500 pontos.
Todos acreditam, porém, que apesar da volatilidade por conta das incertezas externas, o balanço corporativo da Petrobras, que veio bem melhor que o esperado, pode injetar ânimo nos mercados. Também nesta segunda-feira, a bolsa será movimentada pela estreia da OSX BRASIL.
Em relação aos IPOs, cujo movimento ainda não se recuperou a causa é a aversão ao risco por parte dos investidores globais. Os analistas concordam que não é um bom momento para o ingresso das empresas no mercado. Haja vista a decepção com a OPA.
Em Wall Street, a aprovação do projeto de reforma da saúde deve pesar para as ações de companhias do setor.
Agenda da semana tem indicadores de atividade na Europa e EUA, mas, foco na decisão sobre ajuda à Grécia
O tema Grécia voltou à tona, com a decisão da Alemanha de apoiar que uma ajuda financeira à Grécia venha do FMI. Esta opinião, entretanto, não é compartilhada pela França e pelo banco central europeu que defendem uma decisão mais doméstica. A discordância da cúpula da comunidade volta a elevar as incertezas em relação a uma
possível ajuda, caso necessário, impedindo uma aposta muito positiva para os mercados nesta semana.
Neste contexto, as atenções se voltam para o encontro de cúpula da União Europeia, na próxima quinta-feira, quando se espera que o Conselho Europeu - composto pelos chefes de governo dos países da União Europeia – decida a questão.
Por outro lado, indicadores de atividade eventualmente melhores que o esperado nos Estados Unidos e na Zona do Euro podem ameinizar as perdas. Neste sentido, a agenda americana traz alguns relevantes na semana como dados do setor imobiliário, encomendas de bens duráveis e revisão do PIB do quarto trimestre de 2009.
Em linhas gerais, embora o PIB não deva trazer muitas novidades, dados um pouco melhores que o consenso poderão impor um viés levemente positivo para os mercados. Na Zona do Euro, os destaques ficam para as pesquisas PMI de serviços e de manufatura.
Internamente, os destaques são o IPCA-15 de março, a pesquisa de emprego de fevereiro e a ata do Copom, que é o destaque da semana e deve vir com um sinal claro para aumento da taxa básica de juros no próximo mês.
Por fim, os dados do setor externo nesta segunda-feira podem mexer com as expectativas para o câmbio se trouxerem alguma surpresa relevante. O déficit em transações correntes de fevereiro deve ter ficado em US$ 2,1 bilhões, elevando o acumulado em 12 meses para US$ 26,9 bilhões, ante US$ 25,3 bilhões até janeiro.
REPORTAGEM DE:
Miriam Tavares
Diretora de Câmbio
AGK Corretora de Câmbio S.A.